Ele tinha nos olhos a clareza e a inocência de quem é só. Porque não importava por quantos milhões de pessoas ele estava cercado, ele ainda se sentia só. Aprendeu a construir uma cápsula protetora em torno de si, e a usava para não ser notado. Desde sempre aprendeu a procurar felicidade na companhia dos poucos amigos. Tinha um costume (estranho) de ver o mundo, as pessoas e os sentimentos através das cores. Depois fui eu quem passou a ver dessa forma. Ele era estranhamente amável, e mesmo que distante, transmitia uma alegria infantil, alaranjada. Trazia consigo uma paciência inquestionável, a qual me lembrava à cor azul, que combinada com o amarelo da inteligência resultava em um verde encantador. Tantas vezes contou-me sobre um amor rosa, platônico, e percebeu, por conta própria, que este não era mais necessário, guardou a cor em lugar seguro. O cinza era uma cor muito comum no dia-a-dia dele, e tenho que confessar, no meu também. Costumava variar os tons, de claro à escuro, de acordo com o tamanho do vazio que a saudade fazia em nós. Nos dias mais rotineiros, ao invés de se contentar com o marrom, gostava de extravasar no roxo e vermelho, já que quando via essas cores os melhores sentimentos se alojavam nele. Quando eu olhava para ele, nunca conseguia enxergar o preto do ódio, do rancor, ainda bem. O preto absorve todos os outros sentimentos. No entanto, mesmo diante de todo esse sincretismo espetacular de cores, ele se sentia invisível aos olhos dos demais, como se não tivesse cor. O que ele não sabe, é que eu o vejo como um espectro, uma aquarela de cores inefáveis.
Por Luana Leitte.

